Os advogados tributaristas Bruno Medeiros Durão e Adriano de Almeida explicam por que a tensão no Oriente Médio pode pesar no bolso do consumidor brasileiro
A escalada da guerra no Oriente Médio voltou a contaminar a economia global e já produz reflexos práticos no bolso do consumidor brasileiro. O principal canal dessa transmissão é o petróleo: com a tensão em torno do Estreito de Ormuz e a interrupção de fluxos de energia na região, o barril do Brent voltou a disparar em março, chegou a superar US$ 112 e, nesta quinta-feira, voltou a rondar a faixa de US$107. Como o Oriente Médio concentra uma parcela crítica da oferta mundial de petróleo e gás, o choque externo aumenta o custo internacional de combustíveis, frete e seguros, pressionando países importadores e emergentes como o Brasil.
No Brasil, esse efeito não fica restrito às bombas de gasolina. Quando o petróleo sobe, a pressão alcança o transporte de mercadorias, a logística, a indústria e, por consequência, o preço final de produtos vendidos no varejo. O próprio IPCA de fevereiro já mostrou aceleração da inflação para 0,70% no mês, com alta de 0,74% no grupo Transportes e impacto relevante sobre o índice geral. Ainda que o dado seja anterior ao pico mais recente da guerra, ele ajuda a mostrar como os custos de mobilidade e circulação têm peso direto na inflação percebida pelas famílias.
Para o advogado tributarista Bruno Medeiros Durão, presidente do escritório Durão, Almeida & Pontes Advogados Associados, o problema não está apenas no aumento dos preços, mas na combinação entre inflação, perda de poder de compra e crédito mais caro. “A guerra no Oriente Médio cria um efeito em cadeia. Quando o petróleo sobe, o frete sobe, a operação das empresas fica mais cara e isso chega ao consumidor final. O problema é que, no Brasil, esse encarecimento muitas vezes vem acompanhado de parcelamentos pesados, juros elevados e contratos pouco transparentes. É nesse ambiente que a percepção de abuso cresce com força”, afirma.
Esse efeito é sentido de forma mais intensa em países como o Brasil, onde boa parte do consumo das famílias depende de parcelamento, cartão de crédito e financiamento. Em um cenário de pressão internacional sobre combustíveis, transporte e insumos, o preço dos produtos tende a subir, enquanto o custo do dinheiro permanece elevado dentro do sistema financeiro. Para Bruno Durão, o consumidor brasileiro acaba sendo atingido em duas frentes ao mesmo tempo. “Primeiro, ele paga mais caro pelo produto, porque a cadeia produtiva ficou pressionada. Depois, paga ainda mais para financiar esse consumo, porque o crédito segue caro. Em muitos casos, o bem até parece caber no orçamento, mas o financiamento embutido transforma a compra em uma dívida desproporcional”, destaca.
Esse cenário piora um problema que o consumidor brasileiro já conhece bem: comprar mais caro e financiar pior. Em ambiente de maior risco internacional, petróleo elevado e pressão inflacionária, o espaço para queda dos juros básicos fica menor. No comunicado de março, o Banco Central afirmou que as expectativas de inflação para 2026 e 2027 seguem acima da meta. Paralelamente, a nota de crédito mais recente mostrou que, em janeiro, a taxa média de juros nas novas contratações chegou a 32,8% ao ano, com spread bancário de 21,9 pontos percentuais; no crédito livre para pessoas físicas, a taxa média alcançou 61,0% ao ano.
Na prática, a guerra não “cria” juridicamente os juros abusivos, mas alimenta o ambiente em que eles se espalham com mais facilidade. Isso acontece porque o custo do dinheiro sobe, o varejo alonga parcelamentos, financeiras embutem encargos maiores e o consumidor, pressionado pela perda de renda real, aceita contratos mais pesados para conseguir fechar a compra. O problema aparece sobretudo quando o preço a prazo dispara sem transparência, quando o custo efetivo total não é apresentado de forma clara, ou quando a crise internacional vira pretexto para impor vantagem excessiva ao consumidor. O Código de Defesa do Consumidor veda a exigência de vantagem manifestamente excessiva e disciplina o dever de informação nas operações de crédito.
O efeito é perverso porque junta duas pontas: de um lado, produtos potencialmente mais caros por causa da energia e da logística; de outro, crédito mais caro para pagá-los. O resultado é que eletrodomésticos, automóveis, materiais de construção e até compras do dia a dia parceladas no cartão podem ficar mais pesados não apenas pelo preço do bem, mas pelo custo financeiro embutido. E isso ocorre num país em que o comprometimento de renda das famílias já estava em 29,2% no fim de 2025 e o endividamento familiar em 49,7%, segundo o Banco Central.
Do ponto de vista jornalístico e econômico, a leitura é direta: a guerra no Oriente Médio pressiona o petróleo; o petróleo pressiona inflação, frete e expectativas; a inflação e o risco global dificultam o alívio dos juros; e esse ambiente amplia o espaço para crédito caro e para práticas comerciais potencialmente abusivas nas vendas parceladas. Nem toda taxa alta é ilegal, mas, em momentos de crise internacional, cresce o risco de o consumidor pagar muito mais do que imagina, às vezes pelo produto, quase sempre pelo financiamento.
Para o sócio do escritório, o advogado tributarista Adriano de Almeida, a guerra não cria, por si só, o chamado juro abusivo, mas oferece um terreno fértil para práticas excessivas. “Nem toda taxa alta é ilegal, porque o mercado de crédito responde ao risco, à inadimplência e ao cenário macroeconômico. Porém as crises internacionais costumam ser usadas como justificativa genérica para elevar custo financeiro, alongar parcelamentos e embutir encargos que o consumidor, muitas vezes, não consegue dimensionar com clareza”, explica.
Em períodos de instabilidade internacional, como os provocados por conflitos no Oriente Médio, o consumidor tende a tomar decisões financeiras sob maior pressão. Isso acontece porque a alta dos combustíveis, do frete e de insumos eleva o custo de vida, enquanto o crédito continua caro e o orçamento das famílias fica mais apertado. Para o advogado tributarista Adriano, o maior risco está na falta de informação clara sobre o custo real da compra. “O consumidor olha para a parcela e não para o valor total pago ao fim do contrato. Em momentos de instabilidade global, isso fica ainda mais perigoso, porque a urgência de comprar ou reorganizar a vida financeira leva muita gente a aceitar condições desfavoráveis sem perceber. O debate sobre juros abusivos passa, necessariamente, pela transparência do custo efetivo total”, completa.
