Os advogados tributaristas Bruno Medeiros Durão e Adriano de Almeida explicam como a alta do petróleo e do dólar pode pressionar inflação, crédito e endividamento das famílias brasileiras
A escalada da guerra no Oriente Médio recolocou em evidência um efeito que costuma chegar rapidamente ao bolso do brasileiro: a alta do petróleo, a valorização do dólar e a pressão sobre a inflação. Nos primeiros reflexos do conflito envolvendo o Irã, o barril do Brent disparou, chegou a superar US$80 em um primeiro momento e, em sessões posteriores, avançou ainda mais com o fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica para o mercado global de energia. No Brasil, o movimento reacendeu o temor de aumento no custo dos combustíveis, do frete e de produtos essenciais, justamente em um ambiente em que o crédito ao consumidor segue caro e o cartão rotativo permanece acima de 400% ao ano.
O encadeamento preocupa porque o choque externo não fica restrito ao noticiário internacional. Quando petróleo e dólar sobem, aumenta a pressão sobre transportes, logística e preços ao consumidor. Em um país ainda submetido a juros elevados, com a Selic em 15% ao ano, esse tipo de estresse pode reduzir ainda mais a renda disponível das famílias e ampliar a dependência de linhas emergenciais de crédito, como parcelamento de fatura, cheque especial e cartão rotativo.
Para o advogado tributarista Bruno Medeiros Durão, presidente do escritório Durão & Almeida, Pontes Advogados Associados, o risco não está apenas no aumento imediato de preços, mas no efeito em cadeia que isso produz sobre o orçamento doméstico. “A guerra no Oriente Médio produz um choque que parece distante, mas chega com velocidade à rotina do consumidor brasileiro. Petróleo mais caro pressiona combustíveis, encarece o transporte, contamina o preço dos alimentos e corrói a renda. Quando o custo de vida sobe antes da renda, muitas famílias recorrem ao crédito para fechar o mês, e é justamente nesse ponto que os juros abusivos ganham espaço”, afirma.
Segundo Bruno Durão, o cenário exige atenção redobrada porque o consumidor tende a buscar soluções rápidas em um ambiente já hostil. “O problema é que o crédito de emergência no Brasil continua excessivamente caro. O cartão rotativo ainda opera em patamar extremamente elevado, e o parcelamento da fatura, que muitas vezes parece uma saída organizada, pode se transformar em uma dívida prolongada. Em períodos de crise internacional, a vulnerabilidade do consumidor aumenta, e isso exige mais transparência bancária, mais cautela contratual e mais vigilância sobre práticas potencialmente abusivas”, diz.
Dados do Banco Central mostram que, em janeiro de 2026, os juros do cartão rotativo estavam em 424,5% ao ano, um dos níveis mais altos do sistema financeiro. No mesmo contexto, a autoridade monetária mantém a taxa básica em 15% ao ano, em meio a expectativas de inflação ainda acima da meta, o que ajuda a explicar por que o crédito segue pressionado mesmo antes de novos repasses mais intensos da crise internacional para os preços domésticos.
Para o sócio do escritório, o advogado tributarista Adriano de Almeida, o momento combina dois fatores perigosos: inflação importada e tomada de crédito em situação de urgência. “Em cenários de guerra, a primeira consequência econômica costuma ser o aumento da incerteza. Isso fortalece o dólar, eleva commodities estratégicas e encarece a vida real. O consumidor passa a financiar despesas correntes, não investimentos. E quando o crédito é contratado para pagar combustível, supermercado ou contas básicas, a margem de erro diminui drasticamente”, avalia.
Adriano afirma que o debate sobre juros abusivos tende a ganhar força justamente quando a contratação deixa de ser racional e passa a ser defensiva. “Ninguém entra no rotativo porque quer montar uma estratégia financeira sofisticada. Em geral, entra por sufoco. E esse sufoco tende a aumentar em momentos de instabilidade global. Por isso, a discussão sobre abusividade não deve olhar apenas para a taxa nominal, mas também para informação clara, dever de transparência, oferta responsável de crédito e prevenção ao superendividamento”, destaca.
Na avaliação dos especialistas, o conflito pode reacender no Brasil uma discussão mais ampla sobre custo do dinheiro, proteção do consumidor e qualidade da informação prestada pelas instituições financeiras. Em um ambiente de petróleo volátil, câmbio sensível e inflação sob pressão, a tendência é que o crédito ruim pese ainda mais para quem já opera no limite da renda.
